quinta-feira, 16 de junho de 2016

Antes de falar de Morella, preciso falar de Reynaldo. Ele foi meu primeiro amigo. Reynaldo era um talento nato, escrevia contos, compunha músicas, traduzia uma biografia de Joyce e era um ótimo cozinheiro. Apenas um desses atributos já seria suficiente para lhe dar uma renda substancial e fornecer uma carreira promissora. Mas Reynaldo não atuava em nenhuma delas profissionalmente. Na verdade, ele ganhava a vida graças à vagabundagem dos outros estudantes que não estavam aptos ou simplesmente não queriam fazer seus trabalhos universitários.
Reynaldo realmente supria uma carência do mercado: ele fazia e vendia resenhas, pesquisas, ensaios, estudos críticos, monografias e dissertações para alunos vagabundos. E isso era bem rentável, talvez até mais que uma carreira de músico, escritor, tradutor ou de chef de cozinha. Segundo o próprio, esta profissão ilícita propiciava uma carreira promissora também, pois, convenhamos, o que mais havia na Federal, Puc e nas outras faculdades de Curitiba eram alunos vagabundos, sem a menor vontade de estudar e redigir ensaios e monografias.
Foi assim que o conheci, negociando o preço de uma resenha do livro A paixão segundo G.H. para uma aluna de letras. Na época, eu era fã de Clarice Lispector e tinha uma pequena quedinha por Morella, tanto que me dispus a fazer a resenha pra ela de graça, depois que ela me confidenciou o absurdo que eram os custos dos préstimos literários de Reynaldo.

Fernando Koproski
do romance CRÔNICA DE UM AMOR MORTO
http://www.livrariascuritiba.com.br/cronica-de-um-amor-morto-aut-paranaense-lv395564/p

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